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A descoberta da Bolívia pode se tornar a tarefa de uma vida inteira. A entrada no surpreendente mundo desse país intocado quase se converte numa viagem intergaláctica com paisagens que nos transportam a outros planetas, ou pelo menos ao que imaginamos sobre eles; o Vale da Lua, o Deserto de Sal de Uyuni e as ruínas (extraterrestres?) de Tiwanaku. Não nos esqueçamos dos outros mundos que a Bolívia oferece: o espiritual, o psíquico e o supersticioso. Todas essas outras dimensões que sentimos e não podemos tocar também fazem parte da experiência boliviana.

Ao chegar a La Paz (Bolívia), é essencial começar a cura de tranquilidade e desaceleração, tanto por causa dos efeitos da altitude como por conta da preparação para a descoberta de um mundo novo o qual precisamos acariciar lenta e suavemente como quem afaga um amante cuja pele revela uma surpresa a cada toque.

"A importância ritual da área é tão grande que o presidente Evo Morales assumiu aqui o governo em 21 de janeiro de 2006, para receber a energia de seus ancestrais, e foi coroado como Apu Mallku, o “líder supremo”, por vários povos indígenas dos Andes"
 
A cidade mais alta do mundo, “a que encosta no céu”, a quase 4.000 metros de altitude, nos obriga a parar o tempo, pelo menos no primeiro dia da visita, para não sermos vítimas de soroche, a “doença das alturas”. Descanso, líquidos em abundância, chá de coca, pouca comida, nenhuma gota de álcool pelo menos durante as primeiras 24 horas, e Nossa Senhora de La Paz nos receberá de braços abertos. Conforme reza a sabedoria popular boliviana, “ande devagar, coma pouco e durma só” é a receita para esse processo de aclimatação.

Localizada em um “pote” rodeado pelas montanhas do altiplano, a cidade se espalhou morro cima, subindo as encostas e criando bairros coloridos como El Alto acima de 4.000 metros de altitude que, devido ao elevado crescimento populacional causado pela migração das áreas rurais, já se tornou uma cidade independente.

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Diversos templos preenchem os arredores da Plaza Murillo, cujo nome é uma homenagem ao primeiro líder da revolução de 16 de julho de 1809 pela independência da região. A igreja e o convento de São Francisco (séculos XVI e XVII) são o exemplo mais claro do estilo conhecido como barroco mestiço.

No centro da cidade, tropeçamos no Mercado das Bruxas, um lugar que se estende por três artérias ornadas com vitrines ao longo dos quarteirões onde se mesclam todos os tipos de artesanato com tecidos trabalhados à mão, esculturas exóticas em madeira e todas as qualidades de cremes, poções, líquidos, amuletos e quinquilharias possíveis e imagináveis para nos mudar o destino, afastar maus-olhados, atrair benfeitores e obter riqueza, saúde e amor.

Com uma população superior a um milhão de habitantes, mais da metade de origem quíchua e aimará, La Paz ressoa em muitas línguas e vive em uma mistura constante de tradições incríveis, danças, música e crenças religiosas que interagem para criar um novo mundo a ser descoberto.

O Vale da Lua, na zona sul, a poucos minutos do centro, surpreende com extraordinárias formações naturais, crateras criadas pela erosão natural que realmente nos transportam ao que imaginamos ser uma paisagem lunar.
Depois de uma parada no mirante Killi Killi do qual se tem a melhor vista panorâmica da cidade, nada mais típico do que repor as energias em um dos lugares mais cheios de história e tradição de La Paz, a Peña Huari, onde podemos desfrutar um jantar típico com o melhor da dança e do folclore que o país é capaz de oferecer. Diablada, morenada, caporales e saya são as principais expressões artísticas nacionais que podem ser apreciadas na rocha Peña Huari, enquanto se degusta um bife de lhana grelhado ou qualquer deliciosa receita de quinoa, o superalimento básico consumido no altiplano.

Segue-se uma retirada estratégica ao bem situado Ritz Apart Hotel para descansar e acordar cedo, porque amanhã nos espera o Gran Salar de Uyuni, aonde iremos pela mão da agência Tourmakers Bolivia. Deve-se contar com uma empresa local para fazer essa viagem a qual nos proverá com um veículo adequado ao terreno e equipado para qualquer contingência, e com experientes guias especializados nas soluções para qualquer eventualidade. O país é seguro e bonito, com aquela inigualável perfeição de uma terra praticamente intocada, tão difícil de encontrar nos dias de hoje. Em compensação o acesso a determinadas joias turísticas é um emaranhado por conta da falta de estradas pavimentadas e de sinalização.

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O Gran Salar de Uyuni
Se o Vale da Lua nos transportou para o astro assim batizado, o Salar nos leva ao paraíso. Após as chuvas, o Salar, um branco deserto nuclear, se cobre com uma fina camada de água. O céu e as nuvens refletidas nesse espelho molhado compõem uma paisagem em que o céu e a terra são indistinguíveis um do outro. Uma ausência total de horizonte, sem embaixo nem em cima que se estende ao infinito. Colchani, o povoado que vive do sal nos mostrará sua fábrica de processamento artesanal, e veremos como é feita a extração do sal.

O Cemitério de Trenes é outra parada obrigatória. Velhas locomotivas dormem o sono dos justos no meio do planalto, depois de anos de árdua labuta no transporte de sal e minerais daquela área. Sobre seus corpos enferrujados a grafite acumulada dá ao cemitério a aparência de um cenário futurista decadente, resultado de um mundo destruído após uma guerra global.

O pernoite é no Hotel Palácio de Sal, onde tudo é construído com sal; paredes, pisos, escadas, sofás, camas, mesas e tetos. Os quartos são blocos de sal em forma de cúpula para se fechar os olhos no interior dessa cápsula e sonhar com o deserto branco.

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As formações rochosas e as massas d’água são parte integrante da paisagem do altiplano boliviano. O Vale das Pedras, contemplado de longe, parece uma Manhattan em ruínas. De perto, as imponentes massas esculpidas pelas condições climáticas adversas do lugar mostram o poder da natureza em todo o seu esplendor.

Os lagos também são de sonho: a Lagoa Colorada de água avermelhada alimenta os famosos “flamingos James”, únicos de sua espécie em todo o mundo, e as águas cor de esmeralda da Lagoa Verde, cujo pano de fundo é imensurável. O vulcão Llicancahur, a “Montanha do Povo”, é considerado o pai de todos os vulcões, o zelador, o protetor, o renovador.

Outros enormes rochedos perto do povoado de Villa Mar escondem a hospedagem desta noite, o Hotel Jardines de Mallku Cueva, encravado em uma rocha da qual surge o hotel, inspirado na regional e rústica arquitetura andina. Hoje vamos sonhar com pedras embrulhadas em sal.

O lago sagrado
Superstições, tradições espiritualistas e religião católica convivem perfeitamente num amálgama colorido. Em janeiro, celebra-se a Feira das Alasitas, uma congregação artesanal realizada na cidade de La Paz, dedicada à venda de miniaturas (alasitas) com a finalidade ritual de que elas se convertam em realidade. A divindade Ekeko Aymara (deus da abundância) preside a celebração. As alasitas, representações em miniatura do que se deseja — um carro, uma casa, um namorado, etc. — são queimadas depois da cerimônia habitual. O curioso é que, se o desejo se tornar realidade durante aquele ano, os beneficiados fazem romaria até uma das imagens de Nossa Senhora, como Nossa Senhora de Copacabana, a fim de demonstrarem seu agradecimento e fazer oferendas. A folha de coca é parte de qualquer ritual; é queimada, mastigada ou oferecida aos convidados em casamentos e funerais. A vida no altiplano boliviano não pode transcorrer sem ela.

Depois de realizar os rituais no santuário da Virgem de Copacabana, entramos no outro lado da espiritualidade boliviana: o Lago Titicaca, para chegar de barco à sagrada Ilha do Sol. No tempo dos incas, a ilha era um santuário com um templo de virgens dedicadas ao deus Sol, o Inti. É hoje povoada por quíchuas e aimarás, empenhados na agricultura, no turismo, artesanato e pastoreio.

As escadas nos levam à Fonte do Inca, onde um jato d’água muito fresca e pura recebe os visitantes para lhes oferecer o dom da eterna juventude que jorra de seu cano. O povoado de Yumani, situado no topo da ilha, oferece a melhor vista do lago e da Cordilheira Real dos Andes.

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Mais para trás no tempo: Tiwanaku
Hoje retrocedemos ao ano 1580 a.C. para uma visita às ruínas de Tiwanaku (Tiahuanaco), o principal centro cerimonial e berço da cultura andina, onde pululam lendas de seres oriundos de outros planetas baseadas em desenhos dos chamados “homens-pássaros” esculpidos em suas paredes. Não se sabe muito sobre essa antiga cultura, mas seu misticismo, sua espiritualidade, a busca de equilíbrio e a harmonia encontrada nas escavações afastam a ideia de um povo guerreiro. Destaque-se que, dada a falta de conhecimento sobre essa civilização, alguns a datam de 10.000 a.C. e a consideram de origem extraterrestre.

O símbolo da Cruz Andina (Chakana), predominante em muitos dos muros, indica grande conhecimento astronômico. O símbolo é uma referência ao Sol e à constelação do Cruzeiro do Sul, embora sua forma semelhante a uma pirâmide também possua outros caracteres como a subida de uma escada para algo mais elevado. A Porta do Sol aprofunda esses conhecimentos incríveis, porque quando chega o equinócio da primavera austral, no dia 21 de setembro, os primeiros raios de sol penetram, por volta das cinco da manhã, diretamente através da porta.

A importância ritual da área é tão grande que o presidente Evo Morales assumiu aqui o governo em 21 de janeiro de 2006, para receber a energia de seus ancestrais, e foi coroado como Apu Mallku, o “líder supremo”, por vários povos indígenas dos Andes.

O vice-presidente Alvaro Garcia Linera casou-se com a apresentadora de TV Claudia Fernandez em uma cerimônia tradicional em Tiwanaku junto a uma pirâmide de Akapana e da Porta do Sol. O mais curioso da cerimônia consistiu na oferta pela fertilidade e a colheita: o noivo ofertou álcool à mãe Terra (Pachamama) e à noiva, vinho, enquanto um feto de lhana também fazia parte da oferenda. Esses fetos de lhama dissecados e profusamente pendurados estão à venda no Mercado das Bruxas e constituem a oferenda mais comum, uma vez que atraem a fertilidade e não permitem que falte uma boa colheita.

As ruínas arqueológicas continuam a ser exploradas e, a cada dia, surgem resultados surpreendentes. Um dos mais impressionantes é o templo semissubterrâneo a mais de 2 metros abaixo das demais construções. A parte interior das paredes forma o que agora se parece com uma praça. Essas paredes são decoradas com 175 cabeças, diferentes umas das outras, mostrando as características dos distintos grupos étnicos com extrema clareza. Algumas parecem olhar para nós do espaço sideral com seus grandes olhos sem pálpebras ou cílios, outra razão pela qual se diz que Tiwanaku foi construído por uma civilização extraterrestre.

E lá das alturas do cosmos e do altiplano boliviano, com suas noites de céu estrelado como nenhum outro, temos nós de regressar para a Terra, mas desta vez retornamos com a alma enriquecida e os olhos voltados com mais frequência para o céu.