Sozinha, rodeada por mansa natureza, saí do mundo e da agitação. Minha viagem ao Mosteiro de Nossa Senhora do Espírito Santo em Conyers (Georgia, EUA) ofereceu-me a oportunidade única de viver alguns dias numa comunidade de monges cistercienses.



O mosteiro oferece um variado e atraente programa de atividades, simpósios de fotografia, palestras sobre relações familiares e até mesmo seminários sobre as vidas dos santos, seus escritos e suas disciplinas espirituais. Na ocasião de minha visita, oferecia-se um retiro sobre a mística anglicana: Julian de Norwich [1342 - 1416(?)].

O estilo de vida dos místicos sempre me instigou e tem sido uma fonte para saciar minha curiosidade espiritual. Não se sabe muito sobre Julian de Norwich. No entanto, sua obra Dezesseis Revelações do Amor Divino, contempla o sofrimento da humanidade e as revelações sobre a Santíssima Trindade, tão profundos e intelectualmente rigorosos como os de Santa Teresa de Ávila.

Durante aqueles três dias, eu aprenderia a guardar silêncio, e a despertar antes do alvorecer com o único propósito de orar e meditar; trabalharia na horta colhendo verduras e faria de meu trabalho uma oferenda espiritual. Também, várias vezes ao dia, eu cantaria os salmos com os monges no santuário do mosteiro.

Levou 30 minutos do aeroporto de Atlanta ao mosteiro. Chegando, recebi as chaves de minha cela, pequenina, rústica e despojada. Havia uma janela com vista para o pequeno campo santo, cheio de cruzes brancas que marcam as covas onde estão sepultados os monges que deixaram a labuta deste mundo para gozarem o eterno descanso.

A vista para o cemitério transmitia-me uma paz muito grande. A singeleza das cruzes me fez descer, enquanto ainda havia luz, para passar alguns momentos de reflexão naquele lugar. Procurei a saída e me dirigi rapidamente para um enorme muro de tijolos de onde segui o caminho semicircular no sentido do cemitério. O silêncio me propiciou alguns minutos de harmonia difíceis de encontrar na lida do dia-a-dia.

Antes de jantar encontrei-me com o irmão Callistus Crichlow, que seria meu guia e conexão ao claustro. E ali tomei conhecimento que, inadvertidamente, eu violara a privacidade e a exclusão do claustro ao entrar no panteão. O mosteiro tem suas áreas públicas, as áreas para os hóspedes e o claustro no interior do qual está o panteão.

A vida contemplativa
São 3:30 da manhã. Acordei muito sossegada e me preparo sem pressa  para as orações da vigília (Salmos 119:148 - “Fico acordado nas vigílias da noite, para meditar nas tuas promessas”). Ouço os passos suaves de outros participantes do retiro, descendo as escadas que levam à capela. Está muito escuro e acendo a lanterninha que fica na ponta da minha esferográfica. Entro, e imediatamente fico arrepiada. Na penumbra eu vejo as sombras dos monges encapuzados. O tênue murmúrio reinante me faz estacar antes de, com máxima reverência, me dirigir a um assento.

Às quatro horas da manhã, abstraímo-nos em oração e contemplação antes de ouvir a Lectio Divina. A oração contemplativa é o comando para iniciar o dia.
Não é fácil para mim. Durante a meditação, minha mente brinca com um pensamento e outro e se acalma apenas por escassos instantes. Não estou bem certa, mas creio que peguei no sono uma vez ou outra.